sexta-feira, maio 04, 2007

A um Moribundo

"Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono...

A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono...

O que há depois? Depois?... O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

Que importa? Que te importa, ó moribundo?
- Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!..."
Florbela Espanca

6 comentários:

Manuel Jerónimo disse...

Ponderei bastante se poria este poema no caderno negro ou se neste blog, mas dadas as recentes conversas sobre Nietzsche achei apropriado para este.

Anónimo disse...

é giro ver que tu comentas os teus proprios post´s... sabes me esplicar porque é que ela achava que tudo o que o moribundo encontraria seria melhor que a vida? se ninguém sabe o que há depois, uma vez que nunca ninguém voltou para contar( excepto se quisermos contar com as "possuissões" da linda réis com a pomba gira..loool) quem garante que é melhor? mesmo que o que nos espere seja o nada... será que o nada é melhor que a vida? o nada não podes mudar... depois de morto já era... mas em vida podes. sempre.
espero uma resposta:)
xi-<3

Manuel Jerónimo disse...

Bom, isto é um poema, pelo que não minhas as palavras da poetisa, mas procuro somente explicar-te o que me parece. Fala-se aqui de uma de duas possibilidades: do tédio ou do sofrimento atrós. Ambas se adequam perfeitamente, ainda que o sofrimento me agrade mais. A questão é posta de um ponto de vista em que já não há sequer uma luta, uma esperança, mas o puro e completo desespero. A vida não é uma alternativa, não há salvação, não uma luz ao fim do túnel e um completo e absoluto resignar perante a noção de sofrimento. O papel do moribundo é o papel de Sisífo( para quem não sabe quem é, surge na Divina Comédia de Dante numa das zonas do purgatório e estava para sempre condenado a carregar uma enorme pedra montanha acima, para somente a ver rolar montanha a baixo e então recomeçar o seu trabalho. Isto para toda a eternidade, com o agravo de que ele tinha plena noção de que a pedra rolaria e que ele teria de repetir tudo outra vez. Não interessa discutir agora o grau de desespero e a angústia tremenda que isto carrega) Então, o papel o moribundo neste poema é de o de uma pessoa que desistiu da vida, sabe que vai sofrer até ao fim da vida, pelo que tudo o que vier, tudo o que acabe com isto será melhor. É o ponto de vista do suicida.

E o nada nunca será pior do que a vida. O nada é nada. Não é bom nem mau, é nada.

Espero ter respondido à tua questão e peço desculpa pela demora.

Bjs

Anónimo disse...

Mas impõe se a velha máxima quem te disse que tens o nada à tua espera?
e quem te diz que por sofreres muito ate agora e por te encontrares em posição desesperante... amanha não vai ser diferente? ou daí a 2 semanas?, um ano?...
faz me lembrar um debate que tive em espanhol sobre a eutanásia e eu fui obrigada a ser contra... quem te diz que se neste momento não há cura amanha não haverá?ou daqui a uns tempos? claro que nem todos estão dispostos a esperar... as vezes eternamente... mas não se sabe o futuro... não é?
se te apetecer responder...:)
beijinho

Manuel Jerónimo disse...

eu entendo o que tu queres dizer, mas a questão aqui não é essa. A tua vida, como me apercebi há pouco é um constante sistema de possibilidades de tal forma, que existes apenas saltando de possibilidade para possibilidade, abrindo a cada instante um novo sistema de possibilidades, mesmo quando nao fazes nada, estás a executar uma possibilidade. O que se passa com o moribundo é o caso do desespero, que surge quando todas as possibilidades da tua vida se tornam vazias, isto é, perdem o significado. Ainda que compreendas que a tua vida se vai desenvolvendo através de várias possibilidades, nada interessa, nada importa. Ora, quando tu te apercebes disto, cais no desespero do tédio, no desespero de não haver solução. Esperar é só alargar a tortura, porque o não há futuro. A partir do momento em que te apercebes que há uma outra possibilidade, uma possibilidade onde o futuro não é vazio, sais do desespero.

Bjs

Anónimo disse...

....
Bem visto.
Beijinho